Sutras

Avatamsaka Sutra

Fas. XXXII

“(…)

Sudhana perguntou: Como alguém alcança esta realização diretamente? Como alguém pode obter esta realização?

Suchandra respondeu: Um homem alcança esta realização diretamente quando sua mente está desperta para a Prajñaparamita e permanece na mais íntima relação com ela; pois então ele atinge a auto-realização em tudo o que ele percebe e compreende.

Sudhana: Alguém atinge a auto-realização por ouvir os comentários e discursos sobre a Prajñapamita?

Suchandra: Não é assim. E por que não? Porque a Prajñaparamita vê intimamente dentro da verdade e realidade de todas as coisas.

Sudhana: Não sucede que o pensar surge do ouvir e que por pensar e racionalizar uma pessoa vem a perceber o que é o Eu? E não é isto a auto-realização?

Suchandra: Não é assim. A auto-realização nunca surge do mero ouvir e pensar. Ó Filho de Boa Família, eu irei ilustrar a questão por analogia. Ouça! Em um grande deserto não existem fontes ou poços; na primavera ou no verão quando estava mais quente, um viajante veio do oeste indo para o leste; ele encontra um homem vindo do leste e lhe pergunta: ‘Estou terrivelmente sedento; imploro-te que me digas onde eu posso encontrar uma fonte e uma fresca e refrescante sombra onde eu possa beber, banhar-me, descansar, e assim recuperar-me completamente?’ O homem do leste dá ao viajante todas as informações pedidas em detalhes, dizendo: ‘Quando tu fores mais adiante para o leste a estrada irá se dividir em duas, à direita e à esquerda. Tu deves tomar a da direita, e seguindo esforçadamente adiante tu irás com certeza chegar a uma linda fonte e uma refrescante sombra’.

Agora, Filho de Boa Família, tu pensas que o caminhante sedento do oeste, ouvindo as palavras sobre a fontes e as sombras das árvores, e pensando em ir a tal lugar o mais rápido possível, poderá ser saciado da sede e calor e ficar recomposto?

Sudhana: Não, ele não ficará. Porque ele apenas será aliviado da sede e calor e recompor-se-á quando, seguindo as direções do outro, ele realmente atingir a fonte, beber dela e banhar-se nela.

Suchandra: Filho de Boa Família, assim sucede com o Bodhisattva. Por meramente ouvir sobre isto, pensar sobre isto, e intelectualmente compreender isto, tu jamais irás chegar à realização de nenhuma verdade. Filho de Boa Família, o deserto simboliza o Nascimento e Morte; o homem do oeste simboliza os seres sencientes; o calor simboliza toda a sorte de delusões; sede simboliza a arrogância e o desejo; o homem do leste que conhece o Caminha simboliza o Buddha ou o Bodhisattva o qual, encarnando o todo-conhecimento, penetrou na verdadeira natureza de todas as coisas e na realidade da Semelhança; superar a sede e ficar aliviado do calor por beber da fonte refrescante simboliza a realização da verdade em si mesmo. Mais uma vez, Filho de Boa Família, dar-te-ei outra ilustração. Suponhas que o Tathagata permanecesse conosco por outro Kalpa e usando de toda a espécie de planos e valendo-se de fina retórica e apropriadas expressões, conseguisse convencer as pessoas deste mundo do maravilhoso gosto, delicioso odor, toque suave e outras virtudes do néctar celestial; tu pensas que todos os seres terrestres que ouviram as palavras e argumentos do Buddha acerca deste néctar poderiam [assim] saboreá-lo?

Sudhana: Não, na verdade; eles não poderiam.

Suchandra: Pois [do mesmo modo] o mero ouvir e pensar jamais nos fará realizar a verdadeira natureza de Prajñaparamita.

Sudhana: Por quais apropriadas expressões e hábeis ilustrações, então, pode um Bodhisattva levar-nos ao correto entendimento da Realidade?

Suchandra: A verdadeira natureza de Prajñaparamita como realizado por um Bodhisattva – este é o verdadeiro e definitivo princípio através do qual todas as suas palavras pretendem significar. Quando esta emancipação é realizada ele pode sobre isto apropriadamente falar e a isto ilustrar habilmente.


O Sutra do Diamante*

Vajracchedika Prajna Paramita

(1) Assim eu ouvi. Uma manhã, quando o Buda estava perto de Shravasti no bosque de Jeta, Ele e Sua comunidade de mil duzentos e cinquenta monges foram à cidade para mendigar sua refeição matinal; e depois que voltaram e terminaram a refeição, deixaram de lado seus robes e tigelas e lavaram seus pés. Então o Buda sentou-se e os outros sentaram diante dele.

(2) Do meio da assembléia levantou-se o Venerável Subhuti. Ele descobriu seu ombro direito, ajoelhou-se sobre a perna direita, e, juntando as palmas das mãos, inclinou-se diante do Buda. “Senhor,” ele disse, “Tathagata! Honrado-por-todo-o-mundo! Que maravilhoso é que sejamos protegidos e instruídos pela Sua misericórdia! Senhor, quando homens e mulheres anunciam que desejam seguir o Caminho do Bodhisattva e nos perguntam como devem proceder, que devemos dizer-lhes?

(3) Bom Subhuti,” respondeu o Buda, “sempre que alguém anuncia, `Eu quero seguir o Caminho do Bodhisattva porque quero salvar todos os seres sencientes; e não importa se são criaturas formadas em um útero ou chocadas em ovos; se seus ciclos de vida são tão observáveis como os de minhocas, insetos e borboletas; ou se aparecem miraculosamente como cogumelos ou deuses; ou se são capazes de pensamentos profundos ou de nenhum pensamento, faço o voto de conduzir cada um dos seres ao Nirvana!’ então, Subhuti, deves lembrar o que tomou os votos que mesmo que um tal incontável número de seres fosse assim libertado, na verdade nenhum ser seria libertado. Um Bodhisattva não se apega à ilusão de uma individualidade ou entidade egóica ou a uma identificação pessoal. Na verdade, não existe qualquer “eu” que liberta e nenhum “eles” que são libertados.

(4) “Além disso, Subhuti, um Bodhisattva deveria ser desapegado de todos os desejos, sejam de ver, ouvir, cheirar, tocar ou degustar qualquer coisa, ou seja o de levar multidões à iluminação. Um Bodhisattva não prova da ambição. Seu amor é infinito e não pode ser limitado por apegos ou ambições pessoais. Quando o amor é infinito seus méritos são incalculáveis.

“Diga, Subhuti, podes medir o céu oriental?”

“Não, Senhor, não posso.”

“Podes medir o espaço que fica ao Sul, Oeste, Norte ou mesmo para baixo ou para cima?”

“Não, Senhor, não posso.”

“Nem podes medir os méritos de um Bodhisattva que ama, trabalha e dá sem desejo ou ambição.”

“Bodhisattvas deveriam prestar atenção particular a esta instrução.”

(5) “Subhuti, o que achas? É possível descrever o Tathagata? Pode Ele ser reconhecido por características materiais?”

“Não, Senhor, não é possível submeter o Tathagata a diferenciações ou comparações.” Então o Senhor disse, “Subhuti, na fraude do Samsara, todas as coisas são vistas como diferentes ou com diferentes atributos, mas na verdade do Nirvana nenhuma diferenciação é possível. O Tathagata não pode ser descrito.”

“Quem quer que perceba que todas as qualidades não são, na verdade, qualidades determinadas percebe o Tathagata.”

(6) Subhuti perguntou ao Buda, “Honrado-pelo-mundo, sempre haverá homens que compreendem este ensinamento?”

“O Senhor respondeu, “Subhuti, não duvides disso! Sempre haverá Bodhisattvas virtuosos e sábios; e, em eras por vir, estes Bodhisattvas plantarão suas raízes de mérito sob muitas árvores Bodhi. Receberão este ensinamento e responderão com serena fé porque sempre haverá Budas para inspirá-los. O Tathagata os verá e os reconhecerá com seu olho-Búdico porque nestes Bodhisattvas não haverá obstruções, nem percepção de um eu individual, nenhuma percepção de um ser separado, nenhuma percepção de uma alma, nem de uma pessoa. E estes Bodhisattvas também não vão perceber as coisas como tendo qualidades próprias nem como sendo destituídas de qualidades próprias. Nem vão discriminar entre bem e mal. A discriminação entre boa e má conduta deve ser usada como se usa um barco. Depois que deixa aquele que cruzou a corrente no outro lado, deve ser abandonado.”

(7) “Diga, Subhuti, O Tathagata conseguiu a Perfeita Iluminação que Transcende Comparações? Se assim é, há algo sobre ela que o Tathagata pode ensinar?”

“Subhuti respondeu, “Da maneira como entendo o ensinamento ele não pode ser ensinado e não pode ser atingido ou compreendido e nem pode ser ensinado. Por quê? Porque o Tathagata disse que a Verdade não é uma coisa que pode ser diferenciada ou contida e então a Verdade não pode ser compreendida ou expressada. A Verdade nem é e nem não é.”

(8) Então o Senhor perguntou, “Se alguém enchesse três mil galáxias com os sete tesouros – ouro, prata, lápis-lazuli, cristal, ágata, pérolas vermelhas e cornalina – e desse tudo o que possuísse como esmola ou caridade, ganharia grande mérito?”

Subhuti respondeu, “Senhor, grande mérito, de fato, caberia a ele ainda que, na verdade, ele não tenha uma existência separada à qual o mérito pudesse ser associado.”

Então o Buda disse, “Suponha que alguém entendesse apenas quatro linhas do nosso Discurso mas ainda assim resolvesse se dar ao trabalho de explicar estas linhas para alguém mais; então, Subhuti, seu mérito seria maior que o do doador de esmolas. Por quê? Porque este Discurso pode produzir Budas! Este Discurso revela a Perfeição da Iluminação que Transcende Comparações!

(9) “Diga, Subhuti. Um discípulo que começa a cruzar a corrente diz a si mesmo, `Eu mereço as honras e recompensas de alguém que começou a cruzar a corrente’?”

“Não, Senhor. Alguém que realmente esteja entrando na corrente não pensa em si mesmo como uma ego-entidade isolada que possa merecer qualquer coisa. Apenas aquele discípulo que não vê diferença entre si mesmo e os outros, que não dá importância a nome, forma, som, odor, gosto, tato ou qualquer qualidade pode ser chamado um daqueles que entraram na corrente.”

“Um adepto que esteja sujeito a apenas um renascimento mais diz a si mesmo, `Eu mereço as honras e recompensas de alguém que só renascerá uma vez mais’?”

“Não, Senhor. `Um que renascerá uma só vez mais’ é apenas um nome. Não há falecimento ou volta à existência. Apenas quem compreende isto pode ser chamado um adepto.”

“Um Venerável que nunca mais terá que nascer como um mortal diz a si mesmo, `Eu mereço as honras e recompensas de alguém que não mais retornará’?”

“Não, Honrado-pelo-mundo. `Alguém que não retornará’ é apenas um nome. Não existem o retornar ou o não-retornar.”

“Diga, Subhuti. Um Buda diz a si mesmo, `Eu atingi a perfeita Iluminação’?”

“Não, Senhor. Não há nada como uma Iluminação Perfeita a se obter. Senhor, se um Buda Perfeitamente Iluminado dissesse a si mesmo, `tal sou eu’ ele estaria admitindo a existência de uma identidade individual, um eu e uma personalidade separadas e neste caso não seria um Buda Perfeitamente Iluminado.

“Ó, Honrado-pelo-mundo! Havíeis declarado que eu, Subhuti, me distingui entre teus discípulos no conhecimento da bem-aventurança do samadhi, em viver perfeitamente contente e satisfeito em reclusão, e em ser livre das paixões. Ainda assim não digo a mim mesmo que o sou pois se pensasse em mim mesmo como tal então não seria verdade que escapei da ilusão do ego. Sei que na verdade não há Subhuti e portanto Subhuti não reside em qualquer lugar, que ele não conhece e nem ignora a bem-aventurança, e que não é livre e nem escravo das paixões.

(10) O Buda disse, “Subhuti, que pensas? No passado, quando o Tathagata estava com Dipankara, o Completamente Iluminado, Ele aprendeu algo dele?”

“Não, Senhor. Não há algo como uma doutrina a ser aprendida.”

“Subhuti, saibas também que se qualquer Bodhisattva dissesse, `Eu vou criar um paraíso’, ele estaria mentindo. E porquê? Porque um paraíso não pode ser construído nem destruído.

“Saibas então, Subhuti, que todo o Bodhisttva, maior ou menor, deveria experimentar a pura mente que vem depois da extinção do ego. Tal mente não discrimina e faz julgamento de som, gosto, toque, odor, ou qualquer qualidade. Um Bodhisattva deveria desenvolver uma mente que não forma qualquer apego ou aversão a qualquer coisa.

“Suponhas que um homem fosse dotado de um corpo enorme, tão grande que tivesse a presença pessoal como a de Sumero, o rei das montanhas. Sua existência pessoal seria grande?”

“Sim, Senhor. Seria grande, mas `existência pessoal’ é apenas um nome. Na verdade, ele nem existiria e nem não existiria.”

(11) “Subhuti, se houvesse tantos rios Ganges quanto há grãos de areia no rio Ganges, o total de grãos seria grande?”

“Grande, de fato, Honrado-por-todo-o-mundo. Seria mais fácil contar todos os rios Ganges, do que contar o total combinado de grãos de areia neles todos!”

“Subhuti, vou te contar uma grande verdade. Se alguém enchesse três mil galáxias com os sete tesouros para cada grão de areia em todos esses rios Ganges e desse isso tudo como esmola ou caridade, ganharia muito mérito?”

“Muito mérito, certamente, Senhor.”

Então o Buda declarou, “No entanto, Subhuti, se alguém estudasse nosso Discurso e entende apenas quatro linhas dele mas então explica essas quatro linhas para alguém mais, o mérito consequente seria muito maior.”

(12) “Além disso, Subhuti, onde quer que aquelas quatro linhas sejam proclamadas, aquele lugar deveria ser venerado como um Santuário do Buda. E a veneração seria proporcional ao número de linhas explicadas!

“Qualquer um que compreenda e explique este Discurso em sua totalidade consegue a mais alta e mais maravilhosa de todas as verdades. E onde quer que esta explicação é dada, lá, naquele lugar, deverias te conduzir como se estivesses na presença do Buda. Em tal lugar deverias te curvar e oferecer flores e incenso.”

(13) Então Subhuti perguntou, “Honrado-por-todo-o-mundo, por que nome deveria este Discurso ser conhecido?”

O Buda respondeu, “Este Discurso deveria ser conhecido como o Vajracchedika Prajna Paramita – o Lapidador da Sabedoria Transcendental – porque é o Ensinamento que é duro e afiado e corta a concepção errada e a ilusão.”

(14) Neste ponto o impacto do Dharma levou Subhuti a derramar lágrimas. Então, enquanto limpava a face, ele disse, “Senhor, que precioso é que pronunciastes este profundo Discurso! Já faz muito tempo que meu olho da sabedoria foi aberto pela primeira vez; mas desde aquele dia até hoje nunca havia ouvido uma explicação tão maravilhosa da natureza da Realidade Fundamental.”

“Senhor, sei que por muitos anos ainda haverá homens e mulheres que, sabendo do nosso Discurso, o receberão com fé e entendimento. Serão livres da idéia de uma entidade-ego, livres da idéia de uma alma pessoal, livres da idéia de um ser individual ou existência separada. Que realização memorável essa liberdade será!”

(16) “Subhuti, apesar de neste mundo ter havido milhões e milhões de Budas, e todos tendo muito mérito, o maior mérito de todos virá àquele homem ou mulher que, quando nossa Época Búdica chegar próxima ao seu fim no período dos últimos quinhentos anos, receber este discurso, considerá-lo, tiver fé nele, e então explicá-lo a alguém mais, resgatando assim nossa Boa Doutrina do colapso final.”

(17) “Senhor, como então deveríamos instruir aqueles que querem tomar o voto do Bodhisattva?”

“Diga a eles que se quiserem chegar à Perfeita Iluminação que Transcende Comparações eles devem estar decididos em suas atitudes. Devem estar determinados a libertar cada ser vivente mas devem entender que na verdade não há seres vivos individuais ou separados.”

“Subhuti, para ser chamado um Bodhisattva na verdade, um Bodhisattva deve ser completamente destituído de quaisquer concepções de um si mesmo.”

(18) “Diga, Subhuti, o tathagata tem o olho humano?”

“Sim, Senhor, Ele tem.”

“E o Tathagata tem o olho divino?”

“Sim, Senhor, Ele tem.”

“E o Tathagata possui o olho gnóstico?”

“Sim, Honrado-por-todo-o-mundo.”

“E Ele possui o olho da sabedoria transcendental?”

“Sim, Senhor.”

“E o Tathagata possui o olho-Búdico da onisciência?”

“Sim, Senhor, Ele o tem.”

“Subhuti, apesar de haver incontáveis Terras Búdicas e incontáveis seres com diferentes mentes nessas Terras Búdicas, o Tathagata compreende a todos com sua Mente que Tudo Abarca. Quanto às suas mentes, são meramente chamadas de `mente.’ Tais mentes não têm existência real. Subhuti, é impossível reter a mente do passado, impossível reter a mente do presente, e impossível apreender a mente do futuro porque em nenhuma de suas atividades a mente tem substância ou existência.”

(32) “E finalmente, Subhuti, novamente saibas que se um homem desse tudo o que tem – tesouros suficientes para encher incontáveis mundos – e outro homem ou mulher acordasse para o puro pensamento da Iluminação e tomasse apenas quatro linhas deste discurso, as recitasse, considerasse, compreendesse e então, para o benefício de outros, as distribuísse e explicasse, o mérito deste ou desta seria o maior de todos.

“Agora, como deveria ser a maneira de um Bodhisattva explicar estas linhas? Deveria ser desapegado das coisas fraudulentas do Samsara e deveria permanecer na verdade eterna da Realidade. Deveria saber que o ego é um fantasma e que tal ilusão não precisa persistir por muito tempo.

E assim ele deve ver o mundo impermanente do ego –


Quando o Buda terminou, o Venerável Subhuti e os outros na assembléia se encheram de alegria com o ensinamento dEle; e, recebendo-o sinceramente em seus corações, tomaram seus caminhos.”

Como uma estrela cadente, ou a vaidosa Vênus ofuscada

pela Aurora,

Pequena bolha na água corrente, um sonho,

A chama de uma vela, que tremula e se vai.”

* Uma versão abreviada. As seções 19 a 31 foram omitidas porque repetiam seções anteriores. O capítulo 17 foi omitido pelo tradutor para o Inglês, Edward Conze, porque, nas suas palavras: “No capítulo 17 o Sutra volta ao começo. A questão do capítulo 2 é repetida, do mesmo modo como a resposta do capítulo 3. 17-a-d sucessivamente considera os estágios da carreira de um Bodhisattva, exatamente como os capítulos 3 a 5, e novamente o capítulo 10 o fez. Com a ausência de uma real entidade para sua principal idéia, o capítulo 27 novamente cobre terreno antigo.. O 17a corresponde ao 3; 17b ao 10a; 17d ao 7, 14g ao final do 8; 17e ao 10c, e o 17g ao 10b.”

Sutra de Lótus


a essência de todos os sutras budistas


INTRODUÇÃO

Antes de revelar o profundo significado de sua iluminação, Sakyamuni teve que preparar os seus discípulos. As verdades da vida eram difíceis demais para serem compreendidas pelas pessoas comuns, pois elas eram intelectualmente deficientes. Além disso, as pessoas desta época, estavam imersas na busca de desejos imediatos e acreditavam que os mesmos representavam a verdadeira felicidade que elas aspiravam. Por essa razão tornava-se imperioso que Sakyamuni as levasse a encarar as duras realidades da vida deste mundo. Primeiramente ele ensinou a futilidade de uma vida repleta de sofrimentos que termina com a morte e a repetição contínua desse mesmo ciclo. A conclusão lógica desse ensino primitivo, que se tornou a base do Budismo Hinayana, estabeleceu que o único meio de escapar dos sofrimentos era extinguir sua fonte – o desejo. Isto implicava na extinção do corpo do indivíduo, por foi considerado que era a origem de todos os desejos. Assim, foi ensinado que todos deveriam procurar a extinção total dos desejos. Esse ensino era uma introdução rudimentar do profundo conceito de void ou kuu.

Assim que seus discípulos começaram a compreender os seus ensinos. Sakyamuni fez cessar a busca do void. Contou-lhes a respeito das maravilhas da terra do Buda e ensinou-lhes que existia um reino longe deste mundo transitório e mundano. Essa terra eterna e feliz que ele acabara de descrever poderia estar na parte leste ou oeste do universo e seus discípulos desejaram renascer em tal paraíso celeste. Estes ensinos passaram a ser chamados doutrina provisória do Budismo Mahayana. Quando Sakyamuni revelou o que mais tarde seria conhecido como Sutra de Lótus, houve uma mudança radical. Ele incentivou os seus discípulos a examinarem suas próprias vidas ao invés de ficarem desejando por um outro mundo. Os primeiros quarenta e dois anos de ensino de Sakyamuni pode ser considerado como uma doutrina preparatória, os meios que conduziriam todos para a Lei Única, que fora revelada nos oito últimos anos de ensino do Sutra de Lótus.

O Sutra de Lótus integra todas as verdades parciais em um todo perfeito e representa a essência e o conjunto do sistema da Filosofia Budista. Explica a vida tanto como um todo e também nos seus mínimos detalhes. Devido a essa combinação de amplitude e detalhes, o Sutra de Lótus elucida com êxito a energia fundamental da vida – a energia vital que nutre a sabedoria inata em todas as vidas humanas e dá expressão à força da benevolência que emana no seu íntimo. O Sutra de Lótus explica o potencial infinito da vida através de parábolas e descrições de acontecimentos surpreendentes. Sakyamuni achou melhor descrever a iluminação que ele atingira e ensinou-a através de descrições da Cerimônia do Sutra de Lótus. Por essas razões o Sutra de Lótus é denominado como o auge, o ápice dos seus ensinos.

Dentre todos os 28 capítulos do Sutra de Lótus, o capítulo hoben (meios) e juryo (Revelação da Vida Eterna do Buda) são mais importantes e constituem objeto desta preleção


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HOBEN (Meios)

Nesse momento, o Buda levantou-se serenamente de sua meditação e dirigiu-se a Sharihotsu, dizendo: “A sabedoria dos budas é infinitamente profunda e imensurável. O portal dessa sabedoria é difícil de compreender e de transpor. Nenhum dos homens de erudição ou de absorção é capaz de compreendê-la

Qual é a razão disso? Um buda é aquele que serviu a centenas , a milhares, a dezenas de milhares, a incontáveis budas e executou um número incalculável de práticas religiosas. Ele empenha-se corajosa e ininterruptamente e seu nome é universalmente conhecido. Um Buda é aquele que compreendeu a Lei insondável e nunca antes revelada, pregando-a de acordo com a capacidade das pessoas, ainda que seja difícil compreender a sua intenção.

Sharihotsu, desde que atingi a iluminação tenho exposto meus ensinos utilizando várias histórias sobre relações causais, parábolas e inúmeros meios para conduzir as pessoas e fazer com que renunciem aos seus apegos a desejos mundanos.

Qual a razão disso? A razão está no fato de o Buda ser plenamente dotado dos meios e do paramita da sabedoria.

Sharihotsu, a sabedoria do Buda é ampla e profunda. Ele é dotado de imensurável benevolência, ilimitada eloqüência, poder, coragem, concentração, liberdade e samadhis ( meditação ), aprofundou-se no reino do insondável e despertou para a Lei nunca antes revelada.

Sharihotsu, o Buda é aquele que sabe como discernir e como expor os ensinos habilmente. Suas palavras são ternas e gentis e podem alegrar o coração das pessoas. Sharihotsu, em síntese, o Buda compreendeu perfeitamente a Lei ilimitada, infinita e nunca antes revelada.

Chega, Sharihotsu! Não vou mais continuar pregando. Por quê? Porque a Lei que o Buda revelou é a mais rara e a mais difícil de compreender.

A verdadeira entidade de todos os fenômenos somente pode ser compreendida e partilhada entre os budas. Essa realidade consiste de aparência, natureza, entidade, poder, influência, causa interna, relação, efeito latente, efeito manifesto e consistência do início ao fim.


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JURYO (Revelação da Vida Eterna do Buda)

Nesse momento, o Buda dirigiu-se aos bodhisattvas e à grande assembléia: “Homens de fé devota, creiam e compreendam as palavras verdadeiras do Buda.” E uma vez mais disse à grande assembléia:” Creiam e compreendam as palavras verdadeiras do Buda.” E novamente dirigiu-se à assembléia: “Creiam e compreendam as palavras verdadeiras do Buda.” Nesse momento, os bodhisattvas e a grande assembléia, tendo Miroku como líder, uniram as palmas das mãos e dirigiram-se ao Buda dizendo: “Venerável, suplicamo-lhe que nos explique. Acreditaremos e aceitaremos as palavras do Buda. “Eles repetiram essa frase três vezes e então fizeram pela quarta vez: “Suplicamos-lhe que nos explique. Acreditaremos e aceitaremos as palavras do Buda.” Nesse momento, o Buda, vendo que os bodhisattvas repetiram sua súplica por mais de três vezes e que não iriam parar, diz-lhes o seguinte: “Ouçam atentamente sobre o segredo do Buda e seus poderes místicos.

Todos os seres dos mundos de Alegria, Tranqüilidade e também de Ira acreditam que o Buda Sakyamuni, após deixar o palácio dos Sakyas, sentou-se no local da meditação não muito distante da cidade de Gaya e ali atingiu a suprema e perfeita iluminação. No entanto, homens de fé devota, já se passaram infindáveis centenas de milhares de nayutas de kalpas.

Suponhamos que uma pessoa possa reduzir quinhentos quatrilhões de nayuta asamkhya de grandes mundos em partículas de pó. Então, movendo-se para o Leste cada vez que passa por quinhentos quatrilhões de nayuta asamkhya de países deixa cair uma partícula de pó. Essa pessoa continua rumando para o Leste até derrubar todas as partículas de pó. Homens de fé devota, qual é a sua opinião? Será que o total de todos esses países pelos quais ela passou pode ser imaginado ou calculado? O bodhisattva Miroku e os demais disseram ao Buda: “Venerável, esses países são tão imensuráveis e infinitos que ninguém pode calcular quantos são, tampouco a mente tem capacidade para abarcá-los. Nem mesmo todos os homens de Erudição e Absorção com sua sabedoria livre da ilusão poderiam imaginar ou calcular esse número. Embora estejamos no estágio de avivartika, não podemos compreender esta questão. Venerável, só podemos dizer que esses países são imensuráveis e infinitos.

Nesse momento, o Buda dirigiu-se à multidão de grandes bodhisattvas: “Agora, homens de fé devota, eu lhes digo claramente. Suponhamos que todos esses mundos, tendo recebido ou não uma partícula de pó, sejam uma vez mais reduzidos a pó. Digamos que cada partícula represente um kalpa. O tempo transcorrido desde que eu na realidade atingi a iluminação supera esse número em cem quatrilhões de nayuta asamkhya de kalpas.”

Desde então, tenho estado sempre neste mundo saha, pregando e ensinando a Lei. E onde quer que esteja tenho conduzido e beneficiado as pessoas de quinhentos quatrilhões de nayuta asamkhya de mundos.

Homens de fé devota, durante aquele tempo ensinei sobre o Buda Nento e outros, e descrevi como eles entraram no nirvana. Utilizei tudo isso como um meio para estabelecer distinções.

Homens de fé devota, quando as pessoas vêm ao meu encontro, emprego a visão do Buda para observar a sua fé e ver se as suas demais capacidades são aguçadas ou morosas e então, dependendo da receptividade delas, apareço em diferentes mundos e prego meus ensinos com diferentes nomes e descrevo a duração de tempo durante o qual meus ensinos permanecerão válidos. Em algumas ocasiões, quando faço o meu advento, digo a elas que estou para entrar no nirvana, e também emprego diferentes meios para ensinar a maravilhosa e mística a Lei, alegrando seus corações.

Homens de fé devota, eu, o Buda, observei que há muitas pessoas que se contentam com ensinos inferiores, que são pobres de virtudes e cheias de desejos mundanos. A elas ensinei que em minha juventude entrei para o sacerdócio e mais tarde atingi o anuttara-samyak-sambodhi (iluminação ). Mas, na verdade, a época em que atingi a iluminação é extremamente remota, conforme já disse a vocês. Este é simplesmente um meio que emprego para ensinar e converter as pessoas, e fazer com que sigam o caminho do Buda. Esta é a razão porque falo dessa maneira.

Homens de fé devota, todos os Sutras expostos pelo Buda têm como propósito salvar e iluminar as pessoas. Algumas vezes falo de mim mesmo, outras vezes falo dos outros; algumas vezes revelo a mim mesmo, outras vezes revelo os outros; algumas vezes mostro meus próprios atos, outras vezes, os atos dos outros. Tudo o que ensino é verdadeiro, nada é falso.

Por que faço isso? A razão é que o Buda vê o verdadeiro aspecto do mundo tríplice exatamente como ele é. Não há fluxo nem refluxo de nascimento e morte, nem existência neste mundo e extinção depois. Ele não é substancial nem vazio, não é consistente nem diverso. Não é o que aqueles que habitam o mundo tríplice pensam que seja. Tudo isso o Buda vê claramente, totalmente livre de erros.

As pessoas possuem naturezas, desejos, comportamentos, pensamentos e julgamentos diferentes. Por essa razão emprego diferentes ensinos, várias parábolas e histórias sobre relações causais para possibilitá-las a criarem boas causas. Esta prática, própria de um Buda, eu a tenho realizado ininterruptamente, sem nunca negligenciá-la por um momento sequer.

Desta forma, desde que atingi a iluminação, um período de tempo extremamente longo se passou. A extensão da minha vida é de infindáveis asamkhya de kalpas, e durante esse tempo sempre estive aqui sem ter entrado em extinção. Homens de fé devota, uma vez eu também realizei a prática de bodhisattva, e a vida que eu alcancei ainda perdura sem se exaurir. Ela durará ainda duas vezes o tempo de gohyaku jintengo.

Embora na realidade jamais entre em extinção, prenuncio minha própria morte. Esse é um meio hábil empregado pelo Buda para ensinar e converter as pessoas.

Porque faço isso? Porque se o Buda permanece no mundo por um longo tempo, as pessoas de poucas virtudes não conseguirão acumular boas causas, por viverem na pobreza e na miséria irão se apegar aos cinco desejos e cairão nas armadilhas dos pensamentos ilusórios. Se vêem que o Buda sempre se encontra neste mundo e que nunca entra em extinção, agirão com arrogância e egoísmo, ficarão desencorajados ou se tornarão negligentes. Não conseguirão compreender o quanto é difícil encontrar o Buda e não irão se aproximar dele com respeito e reverência.

Então, como um meio hábil, o Buda diz: “Monges, devem saber que é muito raro viver na mesma época em que o Buda aparece no mundo”. Qual é a razão disso? Porque mesmo decorrido um tempo inimaginável de cem, mil, dez mil, cem mil kalpas entre as pessoas de poucas virtudes, algumas terão oportunidade de ver o Buda e outras não. Por esta razão, eu lhes digo: “Monges, é extremamente difícil conseguir ver o Buda”. Ao ouvirem essas palavras, as pessoas compreenderão como é rara a oportunidade de ver um Buda. Em seus corações surgirão a vontade e o desejo ardente de contemplá-lo. Assim, elas o respeitarão e se esforçarão para acumular boas causas. Portanto, o Buda anuncia sua própria morte mesmo que na realidade isso não ocorra.

Homens de fé devota, todos os budas ensinam a Lei assim, através de meios. Eles agem para salvar as pessoas, de maneira que o fazem é verdadeiro, nunca falso.

Imaginem, por exemplo, que haja um médico sábio e habilidoso que sabe como preparar remédios para curar eficazmente todos os tipos de doenças. Ele tem muitos filhos, talvez dez, vinte ou até mesmo cem. O médico viaja para uma terra distante para tratar de um determinado assunto.

Na ausência do pai, os filhos bebem um certo tipo de veneno que os faz enlouquecerem de dor e contorcerem-se no chão.

Nesse momento, o pai retorna para casa e percebe que eles haviam tomado veneno. Alguns haviam perdido totalmente a razão, enquanto outros, não. Ao notarem que o pai havia retornado de tão longe, felizes, os filhos o abraçam implorando de joelhos: “Que bom que está aqui a salvo. Fomos estúpidos ao tomar veneno por engano! Suplicamos-lhe que nos cure e nos deixe continuar a viver!

O pai, vendo seus filhos naquele sofrimento, começa a preparar várias prescrições. Colhe excelentes ervas medicinais que reúnem todas as qualidades de cor, fragrância e sabor. Ele então as mói, peneira e as mistura. Oferece uma dose para os filhos e lhes diz: “este é um remédio altamente benéfico que reúne todas as qualidades de cor, fragrância e sabor. Tomem-no e irão se sentir rapidamente aliviados de seus sofrimentos e livres de todos os males.

As crianças que ainda estavam com a mente sã compreendem que se trata de um remédio excelente tanto na cor como na fragrância; pelo fato de beberem-no rapidamente, conseguem se curar por completo da enfermidade. As que haviam perdido a razão alegram-se igualmente ao ver o pai regressar e suplicam-lhe que as cure, porém quando este lhes dá o remédio, recusam-se a tomá-lo. Por quê? Porque o veneno havia penetrado profundamente e a mente delas já não mais raciocinava como antes. Assim, embora o remédio tivesse excelente cor e fragrância, elas não percebem o bem que ele faz.

O pai pensa: “Meus pobres filhos! O veneno ingerido afetou-lhes a mente por completo. Apesar de estarem felizes por me verem e pedirem que os cure, recusam-se a tomar este excelente remédio. Agora terei de recorrer a algum meio para que eles tomem o remédio.” Assim sendo, ele diz para as crianças: “Ouçam meus filhos, estou ficando velho e fraco. A minha vida está chegando ao fim. Deixo aqui este excelente remédio para vocês. Devem tomá-lo sem se preocupar se fará efeito.”

Logo após ter dado essas instruções, ele parte rumo a outras terras, de onde envia um mensageiro para anunciar aos filhos: “Vosso pai faleceu”. Nesse momento, os filhos, ao escutarem que o pai os havia abandonado e morrido, são tomados pela dor e consternação e pensam: “se nosso pai ainda estivesse vivo, teria piedade de nós e faria algo para nos salvar. Porém, ele nos abandonou e morreu em alguma terra distante. Agora somos órfãos desprotegidos e não temos ninguém em quem possamos confiar!”

Sentindo essa angústia constante, por fim recobram a razão e compreendem que o remédio de fato tem excelente cor, fragrância e sabor. As crianças tomam o remédio, sendo portanto curadas de todos os efeitos do veneno. O pai, ao saber da cura dos filhos, regressa imediatamente para casa e aparece diante deles uma vez mais.

“Homens de fé devota, o que acham disso? Poderia alguém acusar este médico habilidoso de mentiroso?”

Não, Honorável.

Então o Buda disse: “O mesmo sucede comigo. Uma infinidade de centenas de milhares de nayuta e de asamkhya de kalpas decorreram desde que atingi o estado de Buda. Porém, pelo bem dos seres vivos, emprego o poder dos meios hábeis e digo que vou entrar em extinção. Entretanto, em vista das circunstâncias, ninguém pode acusar-me de mentiroso.”

Nesse momento, o Buda, desejando enfatizar uma vez mais o seu ensino, começa a dizer em forma de versos poéticos…


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JIGAGUE – Parte em versos do Capítulo Juryo

Desde que atingi o estado de Buda, infindáveis asamkhya de kalpas transcorreram. Constantemente venho pregando, ensinando e propagando a Lei a milhares de seres vivos. Fazendo com que entrem no Caminho do Buda, e tudo isso durante intermináveis kalpas.

Como um meio hábil aparento entrar no nirvana para salvar todas as pessoas. Mas, na realidade, não entro em extinção. Sempre estou aqui ensinando a Lei.

Sempre estou aqui. Porém, devido ao meu poder místico as pessoas de mentes distorcidas não conseguem me ver mesmo quando estou bem perto delas.

Quando essa multidão de seres vê que entrei no nirvana, consagra muitas oferendas às minhas relíquias. Todos abrigam o desejo único e ardente de contemplar-me. Quando esses seres realmente se tornam fiéis, honestos, justos e de propósitos pacíficos, quando ver o Buda é o seu único pensamento, não hesitando mesmo que isso custe a própria vida, então, eu apareço junto à assembléia de discípulos sobre o Sagrado Pico da Águia.

Nesse momento, digo à multidão de seres: Eu sempre estou aqui, jamais entro em extinção.No entanto, como um meio hábil, algumas vezes aparento entrar no nirvana. E outras vezes, não. Quando em outras terras há seres que desejam respeitosa e sinceramente crer, então eu também, junto a eles, pregarei esta Lei insuperável. Porém, não compreendendo minhas palavras, todos aqui insistem em pensar que eu morri. Quando vejo os seres afogados em um mar de sofrimentos eu não me exponho, para dessa forma fazer com que anseiem contemplar-me.

Então, quando seu coração se enche de ansiedade, finalmente apareço e ensino a Lei para eles.

Assim são meus poderes místicos. Por asamkhya de kalpas, sempre estive no Pico da Águia e em muitos outros lugares. Enquanto os seres presenciam o final de um kalpa e tudo é consumido em chamas, esta minha terra permanece segura e tranqüila, sempre cheia de seres humanos e seres celestiais. Vários tipos de gemas adornam seus corredores e pavilhões, jardins e bosques. Árvores preciosas dão flores e frutos em profusão, sob as quais os seres vivem felizes e tranqüilos. As divindades fazem repicar os tambores celestiais interpretando, sem cessar, a música mais diversa. Uma chuva de flores de mandara cai, espalhando suas pétalas sobre o Buda e a grande assembléia.

Minha terra pura é indestrutível, porém, a multidão a vê consumir-se em chamas, mergulhada em sofrimentos, angústia e temor. Esses seres devido a suas várias ofensas e causas provenientes de suas más ações, passam asamkhya de kalpas sem escutar o nome dos três tesouros.

Mas os que praticam os caminhos meritórios, que são nobres e pacíficos, corretos e sinceros, todos me vêem aqui em pessoa, ensinando a Lei. Às vezes para essa multidão exponho que a duração da vida do Buda é imensurável; e para aqueles que o vêem somente após um longo tempo exponho o quanto é difícil encontrar-se com ele.

O poder de minha sabedoria é tamanho que seus raios iluminam o infinito. Minha vida, extensa como incontáveis kalpas, é resultante de uma prática muito longa. Homens de sabedoria, não abriguem nenhuma dúvida sobre isso! Livrem-se das dúvidas definitivamente, pois as palavras do Buda são sempre verdadeiras.

O Buda é como um excelente médico que se vale de meios hábeis para curar seus filhos iludidos. Embora na realidade esteja vivo, anuncia que entrou no nirvana. Porém, ninguém pode acusá-lo de mentiroso. Eu sou o pai deste mundo e salvo aqueles que sofrem e os que encontram aflitos.

Devido à ilusão das pessoas, apesar de eu estar vivo, anuncio que entrei no nirvana. Pois se me vissem constantemente, a arrogância e o egoísmo tomariam conta de seu coração. Ignorando as restrições, entregariam–se aos cinco desejos, e cairiam nos maus caminhos da existência. Estou sempre ciente de que são as pessoas que praticam o Caminho e as que não o praticam, e, em resposta às suas necessidades de salvação ensino-lhes várias doutrinas.

Medito constantemente: Como posso conduzir as pessoas ao caminho supremo e fazer com que adquiram rapidamente o corpo de um buda?

BREVE PARINIRVANA SUTRA

Tradução de Japonês para Inglês de

Kazuaki Tanahashi e Jonathan Condit

San Francisco, maio de 1980.

Do Inglês para o Português pela Monja Coen

em fevereiro de 2002.

Quando Xaquiamuni Buda girou, pela primeira vez, a roda do Darma Ajnata-kaundinya despertou e em seu último discurso do Darma foi Subhadra, quem se iluminou. Todos que deveriam ser despertos assim o foram. Entre duas árvores sala, Xaquiamuni Buda estava quase entrando Parinirvana. Era o meio de uma noite calma, sem sons. Para o bem de todos seus discípulos Xaquiamuni Buda fez uma breve explanação dos fundamentos do Darma:

Ó Monges! Depois de minha morte respeitem e compartilhem os Preceitos. Manter os Preceitos é como encontrar uma luz na escuridão, como uma pessoa pobre encontrando um grande tesouro. Saibam que os Preceitos são seu mestre. Manter os Preceitos é Me manter sempre vivo neste mundo. Aqueles que mantém os Preceitos não devem se dedicar ao comércio e não devem possuir campos e moradias, não devem governar sobre outras pessoas nem manter servos ou animais. Devem evitar ter plantações e acumular bens da mesma forma que se evita uma fogueira. Não devem cortar grama nem árvores, arar o solo ou cavar a terra. Misturar remédios, ler a sorte, observar a posição das estrelas, predizer as fases da lua, calcular calendários e dias auspiciosos são coisa que não devem ser feitas.

Controlem seus corpos, comam nas horas certas, se conduzam em pureza. Não se envolvam nos afazeres mundanos nem ajam como mensageiros, não façam mágicas, não misturem poções nem se tornem íntimos com pessoas eminentes. Tudo isso não deve ser feito. Com a mente clara e atenção correta vocês devem procurar o despertar. Vocês não devem esconder seus erros, exprimir pontos de vista errôneos nem liderar pessoas erradamente. Ao receber as quatro espécies de ofertas, saibam a quantia correta e fiquem satisfeitos. Não acumulem ofertas.

Agora vou falar brevemente em como proteger os Preceitos. Os Preceitos são as bases da verdadeira libertação, por isso são chamados de pratimoksa – o que leva à libertação. A confiança nos Preceitos faz surgir todos os dhyanas e a sabedoria da extinção do sofrimento. Por esta razão, ó Monges, vocês devem manter os Preceitos e não os devem infringir. Se vocês mantiverem os Preceitos obterão o bem. Se não os mantiverem, nenhum mérito surgirá. Assim, saibam que os Preceitos são o local aonde vive a equanimidade, que é o mérito fundamental.

Ó Monges! Vocês que mantém os Preceitos devem controlar os cinco sentidos. Não deixem os sentidos desprotegidos permitindo que os cinco desejos penetrem. É como um vaqueiro brandindo sua vara para evitar que o gado invada a plantação de outra pessoa. Se há indulgência nos cinco sentidos os cinco desejos ficarão à solta e vocês serão incapazes de controlá-los. Novamente repito, é como um cavalo bravo que não pode ser controlado pelo chicote e cai numa vala levando seu cavaleiro com ele. Assim como o sofrimento de ser ferido por um ladrão dura apenas uma vida, o mal causado pelos cinco sentidos se estende através de muitas vidas criando grande dor. Não negligenciem a atenção. É por esta razão que a pessoa sábia controla seus sentidos e não os segue, mantendo-os guardados, não permitindo que vagueiem ao léu e mesmo quando os libertam, logo todos se extinguem.

A mestra dos cinco sentidos é a mente. Por esta razão vocês devem controlar suas mentes. A mente deve ser mais temida do que cobras venenosas, bestas selvagens ou assaltantes vingadores – mesmo grandes incêndios e destrutivas enchentes não podem a ela ser comparadas. É como uma pessoa que correndo celeremente com uma jarra de mel nas mãos olhe apenas para o mel e não veja um grande buraco. Repito, é como um elefante enlouquecido sem uma corrente ou um macaco pulando nos galhos das árvores – ambos são muito difíceis de se controlar. Dominem a mente imediatamente e não a deixem desembestar.

Se cederem, perderão a boa sorte de terem nascido humanos. Se mantiverem a mente focalizada, não haverá nada que não possam obter. Por esta razão, Monges, vocês devem se esforçar com muita diligência para manter a mente sob controle.

Ó Monges! Quando receberem comida e bebida vocês devem considerá-las como remédio. Não peguem mais daquilo que gostam e menos daquilo que desgostam. Apenas aceitem o suficiente para manter suas vidas e evitar fome e sede. Assim como a abelha apanha apenas a doçura das flores sem manchar sua cor ou tirar sua fragrância, assim vocês devem fazer. Aceitem apenas o suficiente das ofertas para evitar tristezas. Não peçam muito para não destruir boas intenções. Isto pode ser comparado com uma pessoa sábia que conhece a força de seu touro e não o sobrecarrega.

Ó Monges! Durante o dia, pratiquem com determinação o bom ensinamento. Não percam tempo. Da mesma forma, à noite e pela manhã, antes do amanhecer, não negligenciem seus esforços. No meio da noite recitem os sutras. Assim vocês devem ordenar suas vidas. Não deixem que a vida passe à toa, sem obter a realização, apenas dormindo. Vocês devem se lembrar que o mundo todo está sendo consumido pelo fogo da impermanência. Rapidamente procurem pelo despertar e não por dormir. As paixões estão sempre prontas para matar uma pessoa, mais do que seu inimigo mortal. Como vocês podem ficar dormindo e abaixar a guarda? As paixões são como uma cobra venenosa dormindo em sua mente. Não são diferentes de uma cobra negra dormindo em seu quarto: espante-a com a ponta aguda dos Preceitos. Só depois da cobra adormecida sair vocês poderão dormir pacificamente. Se dormirem enquanto a cobra ainda está lá vocês estarão agindo sem consciência. Entre as coisas refinadas, a tecedura da consciência é a melhor. A consciência é como uma agulha de ferro com a qual se pinçam os enganos. Assim sendo, Monges, sempre sigam sua consciência e não a ignorem nem por um só momento. Esquecendo-se da consciência perdem-se todos os seus méritos. Aqueles que conhecem o pudor sabem do bom ensinamento. Aqueles que não conhecem o pudor não são diferentes de bestas selvagens.

Ó Monges! Se alguém vier desmembrá-los, articulação por articulação, vocês devem controlar a mente e não permitir que o ódio surja. Da mesma forma vocês devem proteger suas bocas, caso contrário, palavras más sairão delas. Se vocês permitirem pensamentos de raiva vocês estarão obstruindo seus próprios caminhos e perdendo o benefício de seus méritos. A paciência é uma virtude que não se iguala nem a manter os Preceitos, nem as práticas ascéticas. As pessoas que praticam paciência podem verdadeiramente ser chamadas de poderosas, de seres superiores. Aquelas pessoas que não podem aceitar o veneno do abuso com paciência e alegria, como se estivessem bebendo o néctar celestial, não podem ser chamadas de pessoas de sabedoria que adentraram o Caminho. Por que? Porque os efeitos maléficos do ódio quebram todos os bons ensinamentos e destroem o bom nome, de forma que, tanto no presente como no futuro, outras pessoas não sentirão prazer em vê-los. Vocês devem saber que o ódio é mais poderoso que um fogo ardente. Sempre se protejam e não permitam que a raiva penetre. Nenhum ladrão rouba mais méritos do que o ódio. Leigos cheios de desejos, sem praticar o Caminho, não conhecendo os ensinamentos, sem capacidade para se controlar – neles a raiva pode ser desculpável. Mas, aqueles que deixaram o lar e praticam o Caminho do não desejo nunca devem permitir que o ódio surja, assim como o trovão e o raio não ocorrem num céu suave e claro.

Ó Monges! Lembrem-se de suas cabeças raspadas. Vocês já abandonaram ornamentação, usam roupas simples e são pedintes. Vejam-se assim: se o orgulho surgir vocês o devem extinguir imediatamente. Cultivar o orgulho não é apropriado mesmo para aqueles vivendo no mundo, quanto mais para aqueles que deixaram seus lares para entrar no Caminho – aqueles que controlam seus corpos e praticam o esmolar para obter libertação.

Ó Monges! Uma mente desonesta é incompatível com o Caminho. Por esta razão vocês devem cultivar honestidade. Vocês devem saber que desonestidade só produz enganos. Alguém que entrou o Caminho, logo, não vive nesse plano. É por isso, Monges, que vocês devem ter a mente correta e agir baseados na honestidade.

Ó Monges! Vocês também devem saber que uma pessoa de muitos desejos, procurando grandiosidade apenas para si mesmo, sofre muito. A pessoa de poucos desejos, nem procurando nem desejando nada, não tem esse pesar – esta a simples razão pela qual vocês devem praticar o mínimo de desejos. Mais do que isso: devem praticar poucos desejos porque é a fonte de todos os bons méritos. Uma pessoa de poucos desejos não manipula a mente dos outros desonestamente nem é levada pelos seis órgãos dos sentidos. A mente daqueles que praticam poucos desejos é tranqüila e não tem preocupações. Seja o que tiver é suficiente, nunca há insuficiência. Para aqueles que tem poucos desejos o Nirvana existe. Esta é a prática de poucos desejos.

Ó Monges! Se vocês querem se libertar de todo sofrimento vocês devem conhecer o contentamento. O estado de contentamento é a condição de prosperidade e bem estar. Aquele que está contente fica feliz mesmo quando tem apenas a terra para se deitar sobre ela. Aquele que não fica contente está insatisfeito mesmo em palácios celestiais. Quem não conhece o contentamento é pobre apesar de todas as riquezas que possa ter. Alguém que é contente é rico não importando quão pobre possa ser. Quem não conhece o contentamento é sempre arrastado pelos desejos provocados pelos cinco sentidos e deve ser apiedado por quem é contente. Esta é a prática do contentamento.

Ó Monges! Se vocês procuram pela benção da tranqüilidade irremovível, vocês devem abandonar o tumulto da sociedade e viver a sós em um retiro quieto. Aqueles que vivem em solidão são honrados por Indra e pelos seres celestiais. Por isso vocês devem deixar tanto as suas como as outras comunidades e viver a sós em locais remotos com a intenção de extinguir a origem do sofrimento. Os ávidos por companhia recebem os sofrimentos de estar em companhia, assim como uma árvore corre o risco de murchar se muitos pássaros viverem nela. Se estiverem apegados ao mundo, irão afundar no sofrimento comum assim como um velho elefante se afoga na areia movediça e não consegue dali sair. Tal é a prática do isolamento.

Ó Monges! Se vocês diligentemente praticarem o esforço correto nada será difícil. Por isto vocês devem diligentemente praticar o esforço correto, assim como o constante gotejar da água pode furar uma rocha. Se a mente do praticante for inclinada à indolência será como alguém que esfregasse a madeira para iniciar o fogo e descansasse antes da madeira ficar quente. Mesmo que essa pessoa queira o fogo, a faísca não acontece. Tal é a prática do esforço correto.

Ó Monges! Não percam a atenção quando procurarem por um professor ou por um amigo. Se vocês não perderem a atenção, as paixões não poderão entrar. Por isso, Monges, sempre mantenham a atenção. Se perderem a atenção, perderão todo o mérito. Se o poder de sua atenção for forte você não poderá ser ferido pelos desejos provocados pelos cinco sentidos, mesmo que surjam, da mesma maneira que, se entrar numa batalha usando uma armadura não terá o que temer. Esta é a prática de não perder a atenção.

Ó Monges! Se unificarem suas mentes, suas mentes estarão concentradas. Quando suas mentes estão concentradas vocês poderão compreender as marcas do surgir e do extinguir em todas as coisas no mundo. Por isto, ó Monges, vocês devem sempre e diligentemente praticar a concentração. Se obtiverem a concentração suas mentes não ficarão dispersas. Assim como um lugarejo, para conservar água mantém suas barragens em bom estado, assim o praticante, para o bem da água da sabedoria, deve concentrar-se em meditação e não permitir que vaze. Tal é a prática da concentração.

Ó Monges! Se vocês tiverem sabedoria não terão ganância. Observem-se e não permitam que a sabedoria se perca. Então, através dos Meus ensinamentos vocês poderão se libertar. Se assim não o fizerem não serão considerados seguidores do Caminho, nem mesmo leigos serão. Em verdade, a sabedoria é um navio forte que os leva através do oceano da velhice, doença e morte. Repito, é uma grande lâmpada iluminando a escuridão da ignorância. É um remédio maravilhoso para todas as doenças. É um machado afiado que corta a árvore das paixões. Por isso, ó Monges, através do ouvir, do pensar e do praticar, vocês devem aumentar sempre a sabedoria. Se vocês possuírem o brilho da sabedoria poderão ver claramente mesmo com seus olhos de carne. Tal é a sabedoria.

Ó Monges! Se vocês se engajarem de forma leviana em conversas inúteis suas mentes ficarão confusas. Mesmo que tenham abandonado suas casas não poderão obter libertação. Por isto, Monges, devem imediatamente abandonar pensamentos confusos e conversas desnecessárias. Se quiserem obter a benção do Nirvana vocês devem apenas extinguir o mal de falar à toa. Tal é a prática de evitar a fala fútil.

Ó Monges! De todas atividades meritórias vocês devem, de todo coração, concentrar-se em afastar qualquer forma de indulgência pessoal, assim como vocês evitariam um ladrão. O benéfico ensinamento de grande compaixão do Mais Honrado agora se completou.

Monges, vocês devem se esforçar diligentemente na prática do Ensinamento. Tanto se viverem nas montanhas como à beira d’água, sob uma árvore, num local remoto ou num aposento sossegado, coloque sua atenção no Ensinamento que recebeu e não o esqueça. Vocês devem sempre se empenhar na prática do Ensinamento e do esforço correto. Se morrerem em vão, sem ter feito nada, vocês se arrependerão no futuro. Sou como um bom médico que reconhecendo uma doença prescreve a receita apropriada – se o remédio é tomado ou não, já não é de responsabilidade do médico. Novamente digo: sou como um bom guia que mostra às pessoas o melhor caminho. Se elas não o seguirem, sabendo de sua existência, não é culpa do guia.

Ó Monges! Se tiverem qualquer dúvida sobre as Quatro Nobres Verdades perguntem imediatamente. Não guardem as dúvidas sem procurar resolvê-las.

Por três vezes o mais Honrado exortou os Monges desta forma, mas ninguém na assembléia falou, pois ninguém tinha dúvidas.

Nesse momento Aniruddha, percebendo a mente dos que estavam ali reunidos disse a Buda:

– Honrado do Mundo! Mesmo que a Lua fique quente e o Sol torne-se frio, as Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda não podem mudar. A verdade do sofrimento ensinada por Buda é do verdadeiro sofrimento que não pode virar felicidade. Apego é sua causa verdadeira e não há outra causa. O sofrimento é destruído quando sua causa é destruída. O Caminho da destruição do sofrimento é o Caminho da Verdade e não há outro caminho.

– Honrado do Mundo! Todos estes Monges têm certeza e não têm dúvidas em relação as Quatro Nobres Verdades. Se nesta assembléia houver alguém que ainda não completou sua compreensão, ao ver a passagem de Buda, eles se lamentarão. E aqueles que apenas agora estão penetrando o Ensinamento, obterão o despertar ao ouvir as palavras de Buda, assim como na escuridão da noite um raio ilumina a estrada. Se houver aqueles que já tenham completado sua compreensão e cruzado o mar de sofrimento eles terão apenas este pensamento: Quão rápida é a passagem do Mais Honrado do Mundo!

Quando Aniruddha falou estas palavras, todos na assembléia claramente compreenderam o significado das Quatro Nobres Verdades. Mas o Honrado do Mundo, querendo que todos nesta grande assembléia se tornassem mais fortes, ainda falou assim movido por sua infinita compaixão:

Ó Monges! Não se lamentem! Mesmo que eu vivesse no mundo tanto quanto um kalpa, nosso estar juntos um dia acabaria. Não existe o encontro sem a despedida. O Ensinamento que beneficia tanto a si próprio como aos outros se completou. Mesmo que eu vivesse mais não haveria nada a adicionar ao Ensinamento. Aqueles que deveriam ser despertados, tanto nos céus como entre seres humanos, todos foram acordados. Aqueles que não foram despertados todos possuem as condições para obter o despertar. Se todos meus discípulos, de geração em geração a partir de agora, praticarem o Ensinamento, o Corpo do Dharma do Tathagata existirá para sempre e nunca será destruído.

Logo saibam que tudo no mundo é impermanente: o que se junta inevitavelmente se separa. Não se preocupem, pois esta é a natureza da vida. Diligentemente pratiquem o esforço correto e procurem a libertação imediatamente. Com a luz da sabedoria destruam a escuridão da ignorância. Nada é seguro. Tudo nesta vida é precário.

Agora obtenho Parinirvana. É como livrar-se de uma doença maléfica. Esta coisa má que descartamos é o que chamamos de corpo. Está afogado no mar do nascimento, velhice, doença e morte. Como poderia haver alguma pessoa sábia que não se alegrasse em desfazer-se dele?

Ó Monges! Vocês devem sempre, de todo coração, procurar o Caminho da Libertação. Todas as coisas no mundo, tanto as que se movem quanto as que não se movem, são caracterizadas por instabilidade e desaparecimento.

Parem agora! Não falem! O tempo passa. Atravesso para a outra margem. Este é meu ensinamento final.

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