A batalha pela alma do kung fu

Edição 127/Outubro de 2010 02/12/2011

No legendário templo Shaolin, na China,  discípulos de um mestre de kung fu encaram as mudanças no mundo das artes marciais

por Peter Gwin Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Foto: Fritz Hoffmann

O mestre passa seu último dia de vida envolto em uma colcha costurada pela esposa, sua respiração rascante e irregular dominando o espaço exíguo do quartinho. Ao longo daquele dia frio de primavera, um fluxo de visitantes deságua na pequena cidade de Yanshi, no sopé das montanhas Song, para render homenagem a Yang Guiwu em seu leito de morte. Ele é o homem que lhes ensinou o kung fu. Alguns envergam hábitos de monge e distribuem bênçãos ao entrar na casinha de tijolos. A mulher do mestre, de cabelo branco bem penteado, espalma os ombros de cada recém-chegado como se fosse um irmão de sangue e o admite cozinha adentro, para além do fogareiro de brasas ardentes, para se juntar aos familiares e outros discípulos reunidos ao pé da cama de seu marido.

A esposa debruça-se sobre ele para anunciar um visitante especial, o último discípulo que o mestre acolheu no âmbito de sua família kung fu, 15 anos antes. “É Hu Zhengsheng”, diz ela. De abrigo esportivo e calçando as tradicionais sapatilhas de pano, Hu, hoje um espadaúdo homem de 33 anos, inclina-se sobre a criatura encarquilhada. “Shifu”, fala ele baixinho, respeitoso, empregando o termo mandarim para “professor”. “O senhor está me ouvindo?” Pálidas e finas feito papel de arroz, as pálpebras do velhinho tremem. Por um instante, suas pupilas parecem se fixar no rosto do jovem, antes de se dispersarem.

Foram muitas as vezes em que o mestre contou a Hu como acordava de sonhos nos quais seus antepassados nas artes marciais, monges do templo Shaolin há muito falecidos, vinham visitá-lo. Eles traziam a sabedoria amealhada ao cabo de séculos por muitas gerações de homens cujos pés vincaram as lajes do salão de treinamento da instituição e cujos ossos estão agora enterrados na floresta do Pagode, do lado de fora das muralhas do templo. Eram esses os monges que dedicaram a vida ao aperfeiçoamento dos estilos do kung fu, com nomes do tipo “punho de flor de ameixeira” ou “palma da mão do pato mandarim”, cada qual uma sinfonia de movimentos, com variações sobre como empurrar músculos e ossos em direção a seus limites. Ou para além deles, diria alguém. Talvez até, cogita Hu, esses ancestrais estejam agora rodeando o mestre.

Os avançados discípulos do mestre veem uma ironia no fato de que os pulmões do velho o estejam traindo ultimamente. Ele teria aprovado mais esse giro na roda da vida, uma lição terminal de humildade ao homem que os instruiu sobre o papel fundamental da respiração no aproveitamento da chi, ou força vital, de cada um. Era a primeira coisa que ele ensinava: respirar “pelo umbigo”, expirar pelo nariz, de forma constante, controlada, em harmonia com as batidas do coração e com o ritmo dos outros órgãos. Aprender a respirar certo, dizia ele, era o passo inicial no árduo caminho que leva as pessoas a se conectar com seu manancial de força chi, abrindo dessa maneira uma das portas ocultas do universo.

Kung-fu: Monge Shaolin pratica kung-fu no alto do monte

Agora, com ou sem espíritos invisíveis a seu lado, Yang Guiwu aguarda diante de outra porta oculta do universo. Os discípulos ouvem na respiração dele os sinais de que ele está tentando reunir sua força vital para a jornada a sua frente.

A cerca de 19 quilômetros de onde o velho mestre jaz, em um vale logo depois das montanhas Song, ônibus de turismo preparam-se para regurgitar sua carga diária de visitantes do templo Shaolin. Todo mundo quer ver o berço da maior lenda do kung fu na China. Foi bem ali que um místico indiano do século 5 ensinou aos monges uma série de exercícios, ou formas, que imitava o movimento de animais. Os monges adaptaram as formas à defesa pessoal e, mais tarde, as modificaram, tendo em vista a guerra. Seus descendentes aperfeiçoaram essas “artes marciais” e as utilizaram pelos 14 séculos seguintes em incontáveis batalhas contra déspotas inimigos, sufocando rebeliões e repelindo invasores. Muitos desses feitos se acham anotados em lousas de pedra no templo, ornando também narrativas que datam da dinastia Ming (1368-1644).

Os estudiosos descartam grande parte desses relatos como lendas costuradas com alguns elementos de realidade. As artes marciais a mão livre existiram na China muito antes do século 5 e provavelmente foram trazidas a Shaolin por ex-soldados em busca de refúgio. Durante longos períodos de sua história, o templo era essencialmente um Estado afluente, dispondo de um bem treinado Exército. Quanto mais os monges combatiam, melhores lutadores se tornavam e maior ficava sua fama. Todavia, eles não eram imbatíveis. O templo foi saqueado repetidas vezes ao longo de sua existência. O golpe mais devastador veio em 1928, quando um senhor da guerra vingativo incendiou a maior parte do prédio, inclusive sua biblioteca. Séculos de pergaminhos que detalhavam a teoria e o treinamento do kung fu, bem como tratados da medicina chinesa e escrituras budistas, acabaram destruídos. A transmissão do legado do kung fu de Shaolin passou a se dar apenas de mestre para discípulo, por homens como Yang Guiwu.

Hoje, porém, as autoridades do templo parecem mais interessadas em consolidar a marca de Shaolin do que em restaurar sua alma. Durante a última década, Shi Yongxin, o monge-mor de 45 anos de idade, ergueu um império internacional de negócios que inclui excursões de trupes de kung fu, projetos para TV e cinema, uma loja on-line de chás e sabonetes com a marca Shaolin e templos franqueados no exterior. Além disso, muitos dos homens de cabeça raspada e hábitos monásticos que operam as numerosas caixas registradoras do templo admitem não serem monges de verdade, e sim empregados vestidos a caráter. Bebendo chá em seu escritório, o sereno Shi sustenta que todos esses esforços servem para disseminar o budismo. “Fazemos com que mais pessoas conheçam o zen-budismo e promovemos a nossa cultura”, diz ele. Com seu olhar melancólico, o homem tem o talento do político para dar a impressão de que acredita no que está dizendo.

por Peter Gwin Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Foto: Fritz Hoffmann

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                Edição 127 – A batalha pela alma do kung-fu - Jovem no treino de kung-fu - Fotos kung-fu no templo Shaolin e as mudanças nas artes marciais<br /><br /><br />

Um jovem praticante de kung fu treina no salão de treinamento do templo Shaolin. Apesar de os monges Shaolin no passado terem sido praticantes de kung fu altamente treinados, hoje poucos praticam artes marciais. Para preencher as vagas de suas trupes itinerantes de apresentação, o templo costuma recrutar os melhores alunos de escolas de artes marciais locais.

Esse é um argumento que Shi tem repetido muitas vezes, tanto na imprensa chinesa quanto na mundial, e ele nem é o primeiro monge-mor a enfrentar a crítica de que Shaolin busca riquezas em vez de iluminação. Em todo caso, quer seja uma instituição evangelizadora, quer seja apenas lucrativa, o templo Shaolin ajudou a deflagrar uma inegável renascença do kung fu, a qual coincidiu com a própria emergência da China como potência mundial. Em nenhum outro lugar isso é mais evidente do que em Dengfeng, uma cidade de 650 mil habitantes, a apenas 10 quilômetros dos portões do templo. Cerca de 60 academias de artes marciais surgiram ali nas últimas duas décadas, com mais de 50 mil alunos. As maiores situam-se ao longo da avenida principal, erguendo-se feito cassinos em Las Vegas, com dormitórios em arranha-céus que ostentam murais que exibem lutadores de kung fu, dragões e tigres.

Essas academias preenchem suas vagas com garotos e um número crescente de meninas, vindos de todas as províncias e classes sociais, com idades que vão dos 5 aos 30 anos. Alguns chegam com a esperança de se tornar estrela de cinema ou atingir a glória como kickboxer. Outros vêm para adquirir habilidades que lhes garantirão empregos no Exército, na polícia ou em empresas de segurança. Uns poucos são enviados pelos pais para aprender disciplina e a trabalhar duro.

Durante seis dias por semana, 11 meses por ano, as academias despertam bem cedo, animadas por legiões de alunos vestidos com abrigos esportivos e dispostos em fileiras bem alinhadas, a praticar kung fu. Olhares fixos à frente, costas eretas, eles golpeiam com mãos e pés em uníssono, suas vozes pontuando o ar matinal ao repetir as cadências ordenadas pelo instrutor.

Alguns dias antes de visitar seu mestre moribundo, Hu Zhengsheng atendeu a um telefonema que muitos praticantes de artes marciais passam a vida ansiando receber. Era um produtor de Hong Kong que oferecia a ele o papel principal em um filme de kung fu. É fácil entender o porquê do convite: Hu tem um belo rosto de garoto e projeta uma confiança adquirida através de anos a se testar física e mentalmente.

No entanto, ele não tem certeza se vai aceitar. Hu não concorda com a maneira pela qual o kung fu costuma ser retratado nos filmes: uma celebração de violência que ignora os princípios disciplinares de moralidade e respeito pelo oponente. Sem contar seu medo de cair nas armadilhas da fama. Seu mestre exortava-o a permanecer humilde, mesmo quando Hu superou os demais alunos. A humildade derrota o orgulho, pregava Yang. O orgulho derrota o homem.

Por outro lado, o papel no cinema traria publicidade e dinheiro, coisas tão necessárias a sua pequena academia de kung fu. Com a bênção de seu mestre, Hu fundou a escola há oito anos na periferia de Dengfeng. Ao contrário das grandes academias, que privilegiam a parte acrobática do kung fu e o kickboxing, Hu ensina a seus 200 garotos – e algumas garotas – as formas antigas do Shaolin que lhe foram passadas por Yang Guiwu.

Mas a luta não é a lição mais importante do kung fu, explica Hu. O foco é a honra. As habilidades que ele transmite a seus pupilos vêm com uma responsabilidade. Ele espera de cada um respeito e disposição de “engolir o amargor”, aprendendo a conviver com a adversidade usando-a para disciplinar a vontade e forjar o caráter.

À noite seus alunos dormem em quartos sem aquecimento. Sob qualquer temperatura, eles treinam ao ar livre, em geral antes do nascer do sol. Esmurram troncos de árvore para enrijecer as mãos e praticam agachamentos com outro aluno montado em seus ombros para desenvolver força nas pernas. Durante os exercícios, os treinadores usam bastões de bambu para sapecar os tendões de quem não fizer os movimentos com perfeição ou cujo esforço é considerado insuficiente. Quando lhe pergunto se um tratamento tão severo não poderia criar alunos injuriados, Hu sorri: “Eles estão engolindo o amargor. E entendem que isso os torna melhores”.

O problema de Hu é menos perder alunos do que recrutar novos interessados, de maneira a arcar com as despesas da escola. Muitos dos garotos vêm de famílias pobres, e o mestre só cobra deles a comida. Aos poucos, porém, ele se curvou às novas tendências no ensino e passou a oferecer cursos de kickboxing e de formas acrobáticas de kung fu, na esperança de atrair novos pupilos, para depois dirigi-los às formas tradicionais.

Pela própria experiência, Hu sabe que a ideia de um garoto sobre o kung fu pode mudar com seu amadurecimento. Quando jovem, ele era obcecado por filmes de luta marcial, sorvendo as performances de Bruce Lee e Jet Li, dois dos mais famosos astros desse tipo de cinema, e vivia fantasiando vinganças contra os valentões de sua aldeia. Aos 11 anos, conseguiu cavar sua admissão ao templo Shaolin, onde virou ajudante do treinador de uma das trupes performáticas. Mais tarde, esse homem o apresentou a Yang Guiwu.

“Quando encontrei Yang, eu já havia memorizado muitas formas tradicionais”, conta Hu. “Mas ele me ensinou a teoria por trás das formas. Por que você deve mover sua mão de uma certa maneira. Por que seu peso deve recair sobre determinada parte de seu pé.” Ele levanta-se para demonstrar isso. Um golpe de mão, explica Hu, é disparado como um lance de xadrez, antecipando uma gama de possíveis contragolpes. “Seja lá como meu oponente responder, estarei preparado para bloquear seu golpe e disparar um segundo, um terceiro e um quarto ataque, cada qual direcionado a um ponto de pressão.” Ele faz a pantomima dos movimentos em câmera lenta.

“Um aluno pode aprender isso em um ano”, afirma Hu. “Mas fazer assim” – suas mãos e seus cotovelos viram um borrão ao repetir o movimento a toda velocidade – “leva muitos e muitos anos.” A diferença, ensina ele, está em realizar os movimentos sempre de forma instintiva, despachando cada golpe com precisão e força máxima, sem sacrificar o equilíbrio.

“Não há pontapés voadores ou acrobáticos”, garante ele. Tais movimentos expõem pontos vulneráveis. “Shaolin é pensado para o combate, não para entreter plateias. É difícil convencer a garotada a empenhar muitos anos aprendendo algo que não os tornará ricos ou famosos.” Ele parece absorto nesse pensamento: “É dessa maneira que os estilos tradicionais vão se perder”.

Um garoto vestido com a roupa cinza-claro da escola surge à porta do escritório para relatar que um aluno torceu a canela. Quando Hu chega ali para ver o que acontecera, o aluno, machucado, já havia retomado os exercícios, rilhando os dentes enquanto esmurrava um saco de pancadas. Hu meneou a cabeça com satisfação de professor: “Ele está aprendendo a engolir o amargor”.

Quando a notícia da iminente morte do mestre Yang chega a seu mais enigmático aluno, ele está no topo isolado de um monte acima do templo Shaolin. Shi Dejian, um monge budista de 47 anos, vem de uma semana bem dura. Primeiro, uma equipe de televisão trilhou o caminho vertiginoso na montanha para chegar ao monastério. Com ela veio um lutador profissional de diversas artes marciais, com a missão de testar suas habilidades contra os monges. (Ele voltou machucado para casa.) Depois, um grupo de neurologistas de Hong Kong apareceu para estudar o efeito do rigoroso regime de meditação de Shi sobre sua atividade cerebral. Em seguida, ele passou uma noite exaustiva aplicando suas técnicas chi para aplacar as dores de um amigo doente. E eis que uma autoridade do Partido Comunista de Suzhou irrompe portão adentro solicitando a cura da diabetes de seu irmão. Para um homem que busca a solidão, Shi anda afogado em gente.

Ele deve essa procissão de estrangeiros em grande parte aos videoclipes veiculados na internet em que ele aparece demonstrando as formas de Shaolin, em geral se equilibrando no topo em agulha de precipícios ou no teto de seu pagode, encravado na face de um penhasco, a um pequeno passo em falso de uma queda fatal de mais de 100 metros. Os clipes, filmados por visitantes ao longo dos anos, espalharam-se por sites de kung fu e de medicina chinesa, chamando atenção à filosofia segundo a qual uma vida saudável gira em torno dos princípios de chan (meditação zen), wu (artes marciais) e yi (medicina herbal).

São esses os mesmos princípios na raiz do pensamento que norteia o templo Shaolin, afirma Shi Dejian. Embora ele não o diga, são também os mesmos princípios que os muitos críticos do templo, dentro e fora da China, afirmam terem sido negligenciados em benefício dos negócios. A mensagem de suas performances desafiando a morte tem a ver, parece, com a autenticidade da sua filosofia: quando você pratica o verdadeiro chan wu yi, torna-se possível esse tipo de coisa.

Cara a cara, Shi parece uma espécie de elfo da montanha, com seu 1,60 metro de altura e uma sólida carapaça muscular. Ele enverga um manto de lã e um chapéu em estilo mongol e prefere falar quando está em movimento, replantando uma muda de cedro ou catando folhas de dente-de-leão para uma salada. Suas risadas constantes sugerem um espírito mais moleque que devoto.

O caminho que o levou a esse pico das montanhas Song teve início em 1982, quando, aos 19 anos, e já um prodígio do kung fu, Shi deixou a casa de sua família, não longe da fronteira mongol, para empreender uma peregrinação ao templo Shaolin. Sua busca por professores desse estilo de luta levou-o a Yang Guiwu, e ele logo se distinguiu como o melhor aluno do mestre. Quanto mais aprendia sobre o kung fu, mais se interessava por suas interseções com a meditação e a medicina chinesa. Por fim, resolveu tomar os votos monásticos no templo Shaolin.

Com as multidões de turistas se expandindo no início dos anos 1990, Shi passou a buscar cada vez mais o recolhimento, acampando perto das ruínas de um pequeno templo em um pico nas proximidades. Os monges mais velhos, desolados pela expansão dos empreendimentos comerciais de Shaolin, o encorajaram a transformar o antigo local em um retiro focado no chan wu yi. Shi recrutou pedreiros para cortar blocos de granito das rochas enquanto ele e seus discípulos içavam sacos de cimento e telhas. Aos poucos, foram transformando o templo carcomido em um complexo de pagodes que parece escalar a encosta granítica íngreme da montanha.

O lugar evoca uma calma meditativa, com bolsões de neblina enclausurados ao longo da crista da serra. Shi e seus discípulos cultivam pequenos bambuzais e terraços plantados com vegetais e ervas. Eles seguem uma dieta vegetariana e colhem flores, musgos e raízes para confeccionar remédios contra tudo, de picadas de insetos a problemas de fígado. As pessoas vêm de toda parte da China em busca de tratamento para diversas enfermidades. Em geral, elas querem cuidar apenas dos sintomas, conta Shi, mas “chan wu yi trata da pessoa como um todo. Quando ela fica saudável, os sintomas desaparecem”.

Ele costuma se levantar às 3h30 para meditar. Depois, Shi pratica técnicas respiratórias destinadas a reforçar a chi. Houve um tempo em que ele gastava seis horas ou mais, todos os dias, praticando as formas tradicionais do kung fu. Agora, porém, Shi se vê impulsionado pelas mesmas forças que estão remodelando o templo Shaolin. Ele atende a pedidos de palestras, levanta fundos para finalizar a construção de seu templo, treina seus discípulos e, é claro, dá conta da enxurrada de visitantes – tudo isso competindo por sua atenção e energia. “Mas estou sempre praticando kung fu”, garante ele, apanhando minha mão para pousá-la sobre seu imenso quadríceps. Posso sentir a pulsação que imprime ao músculo. Daí, ele move minha mão para a sua panturrilha batatuda. Mais pulsação. “Faço isso o dia inteiro”, conta Shi, explicando como incorpora os movimentos de kung fu em todas as atividades diárias, desde arrancar ervas daninhas até escalar montanha.

Não seria o kung fu violento em sua essência, pergunto-lhe, e será que isso não contradiz os princípios de não violência do budismo, como o conhecemos no mundo ocidental? Não, como explica ele, já que o fundamento do kung fu é a conversão de energia em força. Na ausência de um adversário, a prática consiste em uma série de movimentos. As fragilidades físicas e mentais do próprio praticante tornam-se seus adversários.

Às vezes o adversário não está distante. Nem todo mundo que sobe a montanha é amigo, e Shi já sobreviveu a atentados contra a sua vida. Anos atrás, ao ir para casa por uma trilha íngreme, quatro homens o emboscaram tentando jogá-lo para fora de uma saliência rochosa. Eles tinham avançadas habilidades de kung fu, mas Shi rapidamente os repeliu. Esse é um assunto que ele prefere não discutir, mas o incidente é confirmado por outras pessoas. “As montanhas Song estão cheias de rivalidades envolvendo o kung fu”, conta-me uma autoridade de Dengfeng, “do mesmo jeito que tem sido há séculos.

Um jovem praticante de kung fu treina no salão de treinamento do templo Shaolin. Apesar de os monges Shaolin no passado terem sido praticantes de kung fu altamente treinados, hoje poucos praticam artes marciais. Para preencher as vagas de suas trupes itinerantes de apresentação, o templo costuma recrutar os melhores alunos de escolas de artes marciais locais.

Na última manhã que passo em seu retiro, Shi mostra-me suas dependência privadas, uma exígua cúpula de pedra empoleirada na ponta de um íngreme penhasco. Ele me conduz até um terraço com vista para o profundo vale em forma de cuia, acarpetado de espessas florestas de pinheiros. Uma frente fria está em atividade, e sua grossa pelerine agita-se atrás dele. Sem aviso, Shi salta para a mureta baixa que bordeja o bico do penhasco, a ventania inflando sua pelerine, que se alvoroça toda sobre o vazio a suas costas.

“Está com medo?”, pergunta-me, ao ver a minha cara. “Kung fu não é só treinar o corpo. É também controlar a mente.” Como uma pluma, Shi saltita com leveza de um pé para o outro, estocando, esmurrando, girando, sempre a centímetros de uma pavorosa queda. Seus olhos arregalam-se quando ele se concentra. O manto encapela-se e farfalha ao vento gelado.

“Você não pode derrotar a morte”, proclama o mestre, sua voz alçando-se acima da ventania. Ele lança um pé ao abismo, equilibrando-se em apenas uma de suas pernas troncudas. “Mas você pode derrotar seu medo da morte.”

Pouco depois de Hu Zhengsheng visitá-lo em seu leito, Yang Guiwu passa para a outra vida. Dezenas de alunos juntam-se a seus familiares na pequena casa em Yanshi. Shi Dejian chega com dois de seus discípulos. Alguns alunos de Hu demonstram sequências de kung fu.

O assobio seguido de explosões de fogos de artifício enchem os ares, alertando o mundo dos espíritos da chegada do mestre. Um trio de flautistas encabeça o cortejo fúnebre para fora da cidade, em direção ao campo de trigo da família, onde o mestre será enterrado ao lado de seus parentes e em meio ao verde reluzente do trigo.

Enquanto caminhamos atrás do caixão, Hu ainda matuta se deve ou não aceitar o papel no filme de kung fu. Seria desrespeitoso, assim, tão em cima da morte do mestre. No entanto, ele já discutiu o assunto com alguns de seus discípulos, que o encorajaram a aceitar. Isso significa que uma parte de Yang Guiwu sobreviveria na performance de Hu e, quem sabe, inspiraria outros praticantes. Afinal de contas, como lembraram seus alunos, foram justamente os filmes de kung fu que coduziram Hu até o mestre.

A roda da vida completou o seu ciclo, como diria o falecido shifu.

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